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CENTRO DE CONVIVÊNCIA: Idosos mergulham na literatura com 'audiobooks' e radionovelas em Brazlândia

CENTRO DE CONVIVÊNCIA: Idosos mergulham na literatura com 'audiobooks' e radionovelas em Brazlândia

Iniciativa do 'CeCon' da cidade-satélite já chegou à 14ª obra e mantém 36 participantes frequentes

 

Para acompanhar uma história, nem todos precisam enxergar as letras ou saber decifrá-las. Em Brazlândia, livros ganham vozes, sons e personagens interpretados para que idosos com diferentes níveis de alfabetização possam participar juntos de um clube de leitura.A experiência já atravessou 14 obras e reúne atualmente 36 frequentadores no Centro de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (Cecon). O capítulo mais recente terminou na última sexta-feira (7), com um sarau que reuniu cerca de 50 idosos.

Durante dois meses, o grupo mergulhou no romance “A Cabeça do Santo”, da escritora Socorro Acioli. A leitura começou em junho e avançou ao longo de 10 encontros semanais, nos quais a história serviu de ponto de partida para conversas, produções artísticas e atividades coletivas.

O trabalho integra o 'Clube do Livro Arvoreando Saberes' e parte de um desafio concreto: tornar a literatura acessível a um público formado majoritariamente por pessoas idosas, entre elas participantes não alfabetizados e outros com dificuldades de visão.

A solução encontrada foi levar os livros para além do papel. As educadoras sociais produzem audiolivros e radionovelas, dividem os personagens entre diferentes vozes e acrescentam efeitos sonoros. Dessa forma, a história pode ser acompanhada pelo ouvido e, depois, debatida pelo grupo.

De ouvintes a autores

O contato com “A Cabeça do Santo” não ficou restrito à narrativa criada por Socorro Acioli. Os próprios participantes produziram uma nova maneira de contar o que haviam acompanhado.

Ao longo das atividades, eles construíram coletivamente um cordel que resume a obra. O trabalho foi apresentado no sarau de encerramento e dividiu espaço com uma exposição de esculturas de cabeças confeccionadas nas oficinas.

A programação também colocou a memória dos leitores à prova. Um jogo de perguntas e respostas recuperou personagens e acontecimentos do romance, enquanto uma sessão de cinema apresentou imagens do local que inspirou a história e entrevistas da escritora sobre a criação do livro.

Até a comida ajudou a transportar a narrativa para o encontro. Baião de dois e cuscuz, presentes no universo explorado durante a leitura, foram escolhidos para o lanche servido aos participantes.

O romance acompanha um jovem que parte para cumprir promessas feitas à mãe e encontra, no percurso, situações que transformam sua maneira de enxergar as pessoas e a própria vida. Questões como desigualdade social e de gênero, solidariedade, resiliência e inclusão atravessam a história.

Literatura como ponto de encontro

Para a chefe do Cecon Brazlândia, Daniele Menezes, garantir o acesso aos livros é apenas uma das dimensões do Arvoreando Saberes. A proposta também utiliza a literatura para aproximar pessoas e estimular a convivência.

As histórias abrem espaço para conversas, lembranças e experiências pessoais, além de ampliarem o repertório cultural dos participantes. O projeto aposta ainda em atividades intergeracionais e no fortalecimento dos vínculos comunitários.

Maria das Graças Nunes acompanha de perto essa rotina. Frequentadora do Cecon há mais de 15 anos, ela destaca o aprendizado proporcionado por cada nova história e a capacidade da cultura de produzir mudanças na vida das pessoas.

Depois de “A Cabeça do Santo”, o clube soma 14 livros concluídos. Mais do que chegar à última página, porém, o trabalho desenvolvido em Brazlândia encontrou uma maneira de fazer com que a literatura seja compartilhada mesmo quando ler um livro impresso não é uma possibilidade para todos.

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