Centros de Atenção Psicossocial para Tratamento de Álcool e outras Drogas atendem a pessoas com sofrimento psíquico intenso decorrente do abuso de abustâncias.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera que a dependência em drogas ilícitas ou lícitas seja, por si só, uma doença, e a Rede de Atenção Psicossocial (RAPs) da Secretaria de Saúde possui diversos recursos para enfrentar esse problema no Distrito Federal.
Com serviços que vão da atenção básica ao atendimento hospitalar, das consultas de rotina à emergência, há um expediente terapêutico que se mostra importante contra a dependência química: o crochê.
“Quando trabalhamos com crochê, não ensinamos apenas a técnica. Trabalhamos a coordenação motora, o cérebro, novos aprendizados e conexões neurais", afirma a enfermeira Angelita Bandeira, que coordena a oficina de crochê do Centro de Atenção Psicossocial para Tratamento de Álcool e outras Drogas (Caps AD) II de Santa Maria — também conhecido como CAPS Flor de Lótus.
Na atividade, Bandeira explica que os participantes desenvolvem importantes habilidades como lidar com a frustração e ter persistência. "Isso porque, às vezes, não conseguimos fazer o ponto de primeira ou algo sai errado no meio do caminho, obrigando-nos a desmanchar o trabalho e recomeçar", conta.
Para a profissional, a técnica serve também como meditação, serenando o ânimo de pacientes e servidores da unidade. “O crochê é igual à nossa vida: se você começar errado, lá na frente vai dar problema. Então, é melhor parar, respirar, desmanchar, recomeçar. A linha torna-se uma metáfora do agir. Se estou tensa, o ponto aperta; se estou tranquila, o ponto relaxa."
Acesso à RAPs
As unidades básicas de saúde (UBSs) da Secretaria de Saúde são a porta de entrada preferencial ao tratamento da população, responsáveis por cuidar de quadros psíquicos mais leves. Para casos de maior complexidade, a RAPs conta com 18 centros de atenção psicossocial (CAPS ), destinados ao atendimento de pessoas com sofrimento mental grave, incluído aquele decorrente da dependência química. As unidades funcionam em regime de porta aberta, sem necessidade de agendamento prévio ou encaminhamento médico — clique aqui para localizar o CAPS mais próximo.
Os centros atuam de forma articulada com a Atenção Primária, serviços hospitalares, assistência social, sistema de justiça e demais políticas públicas.
“O tratamento vai além da abordagem clínica. Entre outros aspectos, os CAPS contribuem para a garantia do acesso à saúde, como direito constitucional, o fortalecimento da autonomia e protagonismo do usuário, a reconstrução de vínculos familiares e comunitários, a inserção e reinserção social, assim como a redução de estigmas”, detalha a gerente do CAPS AD II de Santa Maria, Adriana Câmara.
Além do grupo de crochê, a unidade de Santa Maria conta com oficinas de pintura, manutenção de horta e vários grupos de terapia coletiva, com diferentes temáticas e atividades.
Álcool e outras drogas
No CAPS AD II de Santa Maria, cerca de 90% dos usuários atendidos manifestam o abuso de bebida alcoólica, sendo esta a principal substância associada às demandas do serviço. “Trata-se de uma substância lícita, aceita culturalmente e presente em contextos sociais como festas familiares, encontros e celebrações, o que muitas vezes dificulta o reconhecimento do uso problemático e a adesão ao tratamento”, salienta Câmara.
A gerente pontua diversos impactos observados tanto no âmbito individual quanto comunitário, como perda de vínculos pessoais, sofrimento familiar, violência e sobrecarga dos serviços públicos. “A maior complexidade ocorre quando o indivíduo decide interromper o uso e enfrenta sintomas intensos de abstinência, o que exige acompanhamento profissional qualificado e suporte contínuo."
Paciência e recomeço
Embora a dependência química seja uma condição crônica — na qual busca-se, sobretudo, o “controle”, não a “cura” —, é sempre possível combater a doença. Alexandre Frazão está em tratamento há 16 anos contra o alcoolismo, uma luta constante. “O crochê, porém, me ajuda na concentração e eu esqueço do problema. O vício não tem cura, é preciso ficar no tratamento e ter constância."
Terezinha de Jesus, por sua vez, combate a dependência do álcool há 20 anos. “Depois que comecei a fazer terapia, diminuí muito o consumo. Aqui a gente ouve, sente-se acolhido. O centro é um lugar onde você encontra pessoas iguais a você, um fortalece o outro. O conselho que eu deixo a quem também passa por isso é que procure ajuda. O alcoolismo é, sim, uma doença crônica, que vamos ter para o resto da vida. Todo dia é uma batalha."
