Unidade oferece tratamento multidisciplinar aos bichos; foco é a reabilitação, com soltura na natureza.
Gambá-de-orelha-branca, periquito-de-encontro-amarelo, sagui-de-tufos-pretos e coruja-buraqueira são nomes comuns nos prontuários do Hospital e Centro de Reabilitação de Fauna Silvestre (HFauS).
Inaugurado pelo Governo do Distrito Federal em março de 2024, o equipamento oferece tratamento multidisciplinar aos bichos, mantendo como foco a reabilitação e reinserção na natureza. Em quase dois anos, foram atendidos mais de 5 mil animais de 222 espécies diferentes, sendo 71% mamíferos, 23% aves e 6% répteis.
Pioneiro no Brasil, o HFauSé vinculado ao Instituto Brasília Ambiental e gerido pela Sociedade Paulista de Medicina Veterinária (SPMV). O espaço, que recebeu os primeiros pacientes em fevereiro de 2024 — três periquitos-maracanã — , surgiu como resposta à necessidade de ampliar e qualificar o atendimento veterinário à fauna silvestre na Grande Brasília e, desde então, se consolidou como referência nacional.
Cerca de R$ 5 milhões já foram repassados ao equipamento público.

Atendimento
“Os animais recebem dietas personalizadas e são acompanhados até verificarmos que estão aptos a terem alta”
Thiago Mendes, bilólogo e coordenador do HFauS
Os bichos passam por uma abordagem multidisciplinar que envolve cuidados clínicos, exames laboratoriais e de imagem, alimentação adequada e enriquecimento ambiental para estimular comportamentos naturais e garantir que estejam aptos para viver em liberdade.
As principais causas de entrada são cuidados neonatais (filhotes e jovens), e lesões e fraturas. Os meses com maior número de atendimentos, em 2024 e 2025, foram setembro e outubro.
“Após chegar aqui, os animais são registrados em uma ficha, preenchida por quem fez a entrega, com dados sobre local de resgate, situação de saúde e espécie”, detalha o biólogo Thiago Marques, coordenador do HFauS. “Depois, passam por uma triagem veterinária, em que identificamos o que precisará ser feito, como exames e medicação, e são alocados em alguma área, dependendo da espécie e do porte, podendo ficar em uma gaiola ou até ocupar uma sala inteira. Os animais recebem dietas personalizadas e são acompanhados até verificarmos que estão aptos a terem alta.”
Os casos são diversos. Em janeiro, o hospital teve entre seus pacientes um filhote de bugio encontrado debilitado e com ferimento em um dos dedos e um jacaré resgatado após ficar preso na piscina de uma residência. Pouco depois, no começo de fevereiro, a equipe cuidou de dois tamanduás-bandeiras, um que foi atropelado e outro que ficou preso no portão de uma casa, além de quatro lobos-guarás, também com sinais de atropelamento.

Trabalho contínuo
O hospital trabalha de modo integrado ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), responsável tanto pelo encaminhamento dos pacientes quanto pela reabilitação e soltura na natureza por meio do Centro de Triagem de Animais Silvestres (CeTAS-DF).Também podem encaminhar animais para atendimento o Batalhão de Polícia Militar Ambiental (BPMA-DF), a Universidade de Brasília (UnB), o Zoológico de Brasília e a Secretaria do Meio Ambiente (SeMA-GDF), entre outros parceiros.
Ana Nira, da Comissão de Gestão do HFauS, ressalta o impacto do equipamento, que funciona por meio de marco regulatório das organizações da sociedade civil: “Antes da inauguração, não existia aqui no Distrito Federal nenhum local no qual os animais pudessem ser levados fora do horário comercial ou finais de semana. O HFauS está aberto 24 horas por dia, todos os dias da semana, o que é o grande diferencial, fora que, devido ao modelo de gestão, conseguimos fornecer um atendimento bem completo e amplo para os animais, incluindo cirurgias e assistências como acupuntura e laser.”
Ela reforça ainda que o trabalho de reabilitação e soltura é essencial para a manutenção do equilíbrio ecológico. “Quando reabilitamos um animal e conseguimos devolver à natureza, estamos contribuindo para que possa de fato exercer sua função ecológica”, afirma, aproveitando para anunciar que o hospital, atualmente em Taguatinga, será transferido para outra instalação em breve.
“Será um espaço maior, com ainda mais condições para receber os animais e até fazer a reabilitação, que é a parte voltada para o comportamental, onde vão reaprender a caçar, a identificar os seus pares, com menos contato com seres humanos, até que estejam aptos para serem voltarem à natureza”, adianta.

Índices de recuperação
De acordo com a tenente do Batalhão de Polícia Militar Ambiental, Thays Gonçalves, o serviço ininterrupto favorece o trabalho da corporação e garante agilidade aos tratamentos. “Graças à parceria com o HFauS, temos uma taxa de recuperação de animais resgatados em mais de 90%”, aponta. “Os animais só não voltam para a natureza ou vêm a óbito em casos extremos, já que temos total suporte do hospital no tratamento veterinário. É um trabalho integrado que funciona 24 horas com excelência”.
19.419
Dados oficiais do Ibama apontam que, de 2019 ao ano passado, 15.341 animais silvestres foram resgatados no Distrito Federal e 19.419 foram devolvidos à natureza após avaliação, tratamento e reabilitação.

O total de devolvidos à natureza é superior ao número de resgates contabilizados, uma vez que apreensões e entregas voluntárias também passam por triagem, tratamento e reabilitação antes da liberação à natureza. As informações são consolidadas no Sistema de Informações de Centros de Triagem de Animais Silvestres , que reúne todos os registros de entrada, atendimento e destinação da fauna, incluindo os atendimentos registrados no HFauS.
Em caso de avistamento de animal silvestre, a orientação é nunca intervir diretamente, para evitar acidentes e, principalmente, ataques. O ideal é acionar os órgãos ambientais pelo 190 (BPMA) ou 193 do Corpo de Bombeiros.
