Apenas seis décadas depois de ser inaugurada, a jovem capital federal já guarda lembranças que enchem o coração dos brasilienses, nascidos aqui ou não, de nostalgia. São relatos que trazem brilho ao olhar de quem viveu na cidade especialmente nas décadas de 80 e 90 do século passado.

São serviços, pontos de lazer e até comércios que fizeram história e não funcionam mais. Ficaram apenas na saudade e fazem parte da memória de uma época que não volta mais.

Afinal, quem viveu no Plano Piloto e não se lembra dos micro-ônibus listrados que circulavam nas vias internas das asas Sul e Norte, ou foi criança nos anos 1980 e não se divertiu nas enormes ondas da piscina no Parque da Cidade? Quem não curtiu o entretenimento aquático, por já ser adolescente e jovem nessa época, certamente presenciou as noites de muita dança na memorável boate Zoom, no Lago Sul.

Em 60 anos de história, a lista já é enorme. Além do Zebrinha e da Piscina com Ondas, era programa certo das famílias que viviam em Brasília na década de 1980 deixar parentes no aeroporto e passar horas observando o embarque e desembarque das aeronaves no mirante, desativado em 1992. Época em que, após as baladas do fim de semana, a galera amanhecia o dia no terminal, já que era o único local aberto de madrugada para tomar um bom café da manhã.

Zebrinha

Ôs ônibus do tipo Zebrinha foram criados para fazer o transporte nas entrequadras do Plano Piloto | Foto: internet

Em homenagem aos 60 anos da capital, a Agência Brasília listou ícones do passado brasiliense que não existem mais. Um deles, que traz uma grande nostalgia, é o micro-ônibus Zebrinha, criado em 1981.

Oficialmente chamado de Serviço Especial de Vizinhança, o veículo fazia parte de um sistema de transporte público feito por ônibus menor e tinha o objetivo de ligar as vias internas das asas Sul e Norte até a Esplanada dos Ministérios e setores de Autarquias, comerciais e bancários.

A escolha do nome do novo ônibus veio de um concurso popular. Ele foi batizado de Zebrinha por causa das listras brancas e vermelhas na lataria. Até as paradas de ônibus eram pintadas de branco e vermelho, mas nem só nelas a lotação estacionava: também era comum os motoristas deixarem os passageiros desembarcarem nas comerciais.

Como os ônibus convencionais, os zebrinhas também trafegavam pela W3 ou pela L2. Porém, entravam em determinadas entrequadras e percorriam trechos da L1, a via entre as quadras 200 e 400, ou da W1, a avenida entre as quadras 100 e 300. No Plano Piloto havia quatro tipos de Zebrinha: dois que percorriam a Asa Sul, um que circulava pela W3/W1 e outro pela L2/L1. O mesmo acontecia na Asa Norte. Também havia linhas que iam até o aeroporto, Conjunto Nacional e circulavam pelo Cruzeiro.

O lançamento contou com uma campanha para que o brasiliense deixasse o carro em casa e utilizasse o transporte público para ir ao trabalho, o que deu certo. Durantes as décadas de 1980 e 1990, os zebrinhas caíram no gosto popular e foram bastante utilizados por toda comunidade do Plano Piloto, desde funcionários públicos, estudantes e até aeromoças que chegavam ao Aeroporto de Brasília.

Durante um ano, de 1986 a 1987, o servidor público Jaime Côrrea de Sá Filho, conhecido como Billi e atualmente com 61 anos, foi passageiro diário dos zebrinhas. Então com 28 anos, ele morava na 216 Norte, a poucos metros do ponto final, e embarcava no ônibus de segunda a sexta para ir trabalhar. “Era ótimo, pegava o ônibus vazio”, conta.

O funcionário público Billi saía da 216 Norte de Zebrinha e, em 20 minutos, estava no Senado Federal | Foto: Paulo H Carvalho / Agência Brasília

Em 20 minutos, às vezes até menos, Billi chegava à gráfica do Senado Federal, onde trabalha até hoje. Descia na parada da Praça dos Três Poderes, ao lado do Palácio do Planalto. Para ele, a grande vantagem do Zebrinha é que, ao contrário dos outros ônibus, aquele não ia até a Rodoviária, onde os veículos ficavam parados.

“Era muito mais rápido”, conta. “Ele saía da L2 Norte, já fazia o retorno e descia para a Esplanada. Tinha um circular que fazia quase o mesmo trajeto, mas ele ia até a Rodoviária, e eu não gostava.”

A tarifa do Serviço de Vizinhança era quase o dobro da cobrada pelos dos ônibus convencionais, o que dava um ar de sofisticação ao transporte. Na época, as pessoas diziam que era “coisa de rico” andar de Zebrinha. “A gente pagava pelo conforto”, diz Billi. Os assentos, lembra ele, não eram alinhados em filas como hoje, mas ocupavam toda a lateral do veículo, o que o deixava mais confortável, permitindo que os passageiros se sentassem uns de frente para os outros.

Os usuários, saudosos, também se lembram que não havia cobrador. Outros se recordam de serem chamados pelo nome pelos condutores. A passagem era paga ao próprio motorista, que guardava o dinheiro em uma gavetinha perto do volante. O pagamento era feito no desembarque, depois que os passageiros puxavam a cordinha para sinalizar o fim do trajeto e passavam pela roleta, onde ficavam esperando chegar ao ponto.

Segundo o publicitário João Amador, que mantém um perfil no Facebook desde 2014 com histórias de Brasília, nos anos 2000, o serviço quase acabou por pressão das empresas de ônibus. O veículo resistiu até 2013, abrangendo Cruzeiro e Octogonal, mas sem passar por dentro das entrequadras. “Assim, o charme e o glamour dos tempos passados deixaram de existir”, afirma. Os zebrinhas eram operados pelo grupo Viplan, empresas Condor e Lototáxi, que saiu do sistema de transporte público. De acordo com a Secretaria de Transporte e Mobilidade (Semob), as linhas do antigo Zebrinha não foram extintas: atualmente, integram o chamado Serviço Básico e são atendidas também por micro-ônibus das concessionárias Piracicabana e Pioneira.

Piscina com Ondas

Piscina com Ondas, no Parque da Cidade inaugurada em 1978, foi a primeira do gênero na América Latina | Foto: Arquivo Público do Distrito Federal

Outro ícone dos anos 80 e 90 era a Piscina com Ondas, do Parque da Cidade. Inaugurada em 1978, foi a primeira do gênero na América Latina. Produzia ondas de até um metro de altura, anunciadas por uma sirene a cada cinco ou dez minutos. Nos fins de semana, recebia cerca de 10 mil pessoas, chegando a ser um dos pontos turísticos mais visitados e famosos de Brasília no auge do seu funcionamento.

O que era diversão para todas as crianças configurava motivo de tristeza para o motorista Gilberto Amaral Duarte, 52 anos. Na época morador da Granja do Torto, ele ia ao local com o irmão mais velho Edvaldo. Mas, quando a sirene anunciava as ondas, o rapaz, apenas três anos mais velho, obrigava Gilberto a sair da piscina. “Eu tinha uns 12 anos e ele se sentia responsável por mim”, conta. “Tinha medo de eu me afogar e me fazia sair da piscina. Eu morria de raiva”.

Segundo João Amador, nas proximidades da Piscina com Ondas também aconteciam memoráveis rodas de viola entoadas pelas estudantes, e ainda anônimas, Zélia Duncan e Cássia Eller. Ele diz que, com a morte do casal que administrava o negócio, a piscina entrou em decadência e faliu, fechando as portas em 1997.

“Depois disso, [a piscina] ficou mais de 15 anos abandonada, acumulando lixo e sujeira, com constantes promessas de revitalização”, conta. “Recentemente, uma parte do local foi restaurada para a realização de uma festa temática dos anos 80, já que a Piscina com Ondas é um dos maiores símbolos candangos desse período”. O local, sem água e sem ondas, também foi ocupado em 2019 por contêineres coloridos recheados de opções gastronômicas, música, artes visuais e sessões de cinema, durante projetos de produtores da cidade, com o objetivo de levar cultura e lazer aos espaços “esquecidos” da capital.

Mais saudade

O projeto Histórias de Brasília nasceu com um perfil no Facebook que atualmente tem 114 mil seguidores compartilhando fotos antigas e textos com histórias desses 60 anos da capital. Hoje João Amador também mantém um perfil no Instagram com 54 mil seguidores, além de um site e um canal no Youtube; e, desde 2016, publica uma série de livros com uma versão das histórias e curiosidade divulgadas nas redes. “Eu sempre guardei essas histórias”, conta. “Um dia, comecei a compartilhá-las nas redes sociais sem grandes pretensões. Aí as pessoas começaram a me mandar fotos, eu postava e foi um sucesso”.

O mirante do aeroporto é outro ponto na memória dos brasilienses | Foto: Divulgação / rede social Histórias de Brasília

De acordo com o publicitário, outro local de que os brasilienses também sentem muita saudade é o mirante do aeroporto, nome dado ao terraço panorâmico que se tornou point de nativos e turistas, que iam ver “de pertinho” a movimentação de aeronaves e tirar fotos.

O mirante foi desativado com as reformas iniciadas em 1992. Nos anos 1990, os jovens se encontravam no terminal depois das festas para tomar café da manhã, já que era um dos únicos locais da cidade que ficava aberto na madrugada.

Boate Zoom, no Lago Sul, era o point dos jovens de Brasília | Foto: Divulgação /rede social Histórias de Brasília

E quem não se lembra do Pedalinho no Parque da Cidade, diversão do passado que funcionou por anos no lago próximo ao Estacionamento 10 e hoje está desativado? E como não falar da boate Zoom, no Centro Comercial Gilberto Salomão, no Lago Sul? Inaugurada em 1986 onde antes havia o Cine Espacial, a casa colocou Brasília no mapa da noite brasileira e foi um sucesso até meados dos anos 1990.

Fruto de parceria entre os empresários Gilberto Salomão e o então “rei” da noite carioca, Chico Recarey, a danceteria foi inaugurada com uma das festas mais badaladas da história da cidade, tendo entre os convidados celebridades como Pelé, Xuxa, Luiza Brunet e Roberta Close.

Moradores de Taguatinga se divertiam no Clube Primavera | Foto: Getúlio Romão

Moradores de Taguatinga, principalmente quem era criança nos anos 1980, se lembram bem do Clube Primavera, que ficava na QSC 17, em Taguatinga Sul. O clube chegou a ter mais de 20 mil sócios, possuía piscinas de adultos e infantis, quadras, saunas, bar, restaurante e era o ponto de encontro de quem vivia na região administrativa. Épicos bailes de Carnaval ocorreram ali, mas o clube foi desativado e abandonado nos anos 1990 com uma dívida milionária.

Propaganda da lanchonete Truc´s Burger. Foto: divulgação rede social “histórias de Brasília”

Também é dos anos 1980 outra querida lembrança dos brasilienses: a rede de lanchonetes Truc’s Burger. Como não lembrar do macaco de macacão amarelo, símbolo do grupo? A empresa fez muito sucesso até fechar as portas, em meados dos anos 1990.

Em 1976, a vista de Brasília era um grande atrativo e fazia parte da noite de famílias que jantavam no restaurante panorâmico no mezanino da Torre de TV.

O local foi fechado e passou mais de duas décadas em obras, até ser reinaugurado, em 2014, com um café, que também parou de funcionar cerca de um ano depois. Atualmente, o mezanino está fechado e toda a Torre de TV se encontra em reforma, obra prevista para ser entregue em comemoração ao aniversário de Brasília, 21 de abril.

No mezanino da Na Torre de TV havia um restaurante panorâmico | Foto: Divulgação / rede social Histórias de Brasília
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Saudade: ícones brasilienses imortalizados na memória